sexta-feira, 28 de maio de 2010

A Pomba Gira da Paz




Alô?

Alô.

Por favor, o Mário está?

Mário que Mário?

Ele hesitou um pouco, a língua se adiantara à boca e ele já ia dizendo “Aquele que...” quando de súbito lembrara-se. Era evangélico agora.

O Mário Antunes.

Aqui não tem nenhum Mário Antunes.

Mas aí não é (falou o número do telefone).

É. Disse a mulher em tom imperioso e calou-se bufando. Expressava claramente a sua insatisfação frente àquela ligação inapropriadíssima para a hora.

Então. O Mário Antunes me passou o número desse telefone e...

O telefone desligou-se. Em um primeiro momento ele olhou, curvando o corpo para trás, para a tomada, certo de que a mesma havia se desconectado, mas quando percebeu que ela continuava intacta sentiu uma dor lancinante no peito: era o ódio. A velhaca havia desligado o telefone. O rosto tornou-se rubro e uma gama imensa de impropérios lhe passou pela cabeça em menos de um lampejo de tempo. Brutalmente rediscou o número e a mesma voz seca e acabrunhada iniciou:

Alô.

Eu acabei de ligar para a senhora a respeito do Mário...

Não tem Mário nenhum meu senhor, foi um engano, um engano!

Eu queria falar sobre uma casa que está para alugar.

A senhora calou-se por um instante. Agora compreendia do que se tratava, mas não se sentia compelida a avançar na conversa.

Ah... Uma casa para alugar. Provavelmente o senhor desejaria falar com o Mauro.

Mauro?

É Mauro.

Antunes?

Não. Afonso.

Mauro Afonso?

É.

Hum. É uma casa de dois quartos, sala, cozinha...

É.

Eu gostaria de pegar a chave para olhar a casa, se não fosse incômodo.

A mulher agora parecia mais interessada e menos brusca disse:

Incômodo algum.O senhor pode passar amanhã mesmo para pegar a chave e aproveita enfia ela no (e terminou).

Ele, atônito e irado, tornou a discar, agora se descabelando, com o único intuito de desejar a velha que ela fosse fazer algo horrível em um lugar tenebroso. Mas o telefone estava mudo. Aquilo encheu o peito do homem de uma fúria jamais sentida por ele. Desejou tão mal à velha, mas tão mal, que sentiu náuseas. Foi até o banheiro e deixou lá todo o almoço. Depois, ainda aturdido, ficou a olhar para o telefone. E ficou assim durante muito tempo. Sem nada poder fazer. O ódio retirara dele todas as forças e agora só restava uma carcaça oca pronta a abrigar o que restara de um espírito recém convertido ao cristianismo presbiteriano.


A velha, após aquele ato de insuspeita maldade refestelou-se jubilosa no sofá. Acariciou o gato com indizível prazer no peito por ter se livrado de tão fastidioso malandro. No outro dia, os dois se encontraram na igreja em busca de salvação e cantaram lado a lado um hino de louvor à Nosso Senhor Jesus Cristo, chegando mesmo a segurarem as mãozinhas e a dar furtivas trocas de olhares enquanto ocorria a agitada cerimônia.


Pensou ele dela que parecia ser muito nobre senhora e ela dele que deveria ser um rapaz de muito respeito.

5 comentários:

FelKan disse...

Esse post cheira a vingança!

Murilo disse...

No dia seguinte, o homem tenta novamente falar com Mário. Disca o número e prende a respiração, como se ajudasse na torcida.

O telefone toca, 2 vezes... e é atendido:

- Alo?

- Eu gostaria de falar com o Mário, ele está?

- It´s me! Mário!

Esse foi mais um comentário "very gooda" de Murilo.

Thank you for play!

FelKan disse...

Congratulations, pode ser que leve 1 UP pra você conseguir outro comentário tão bom quanto esse...

Pablo (yo) disse...

Great blog!!!
If you like, come back and visit mine: http://albumdeestampillas.blogspot.com

Thanks,
Pablo from Argentina

Bruno Manzaro disse...

Muito bom o texto, show de bola msm...

Situações que parecem absurdas, mas podem acontecer.

Eu queria encontrar alguma operadora de telemarketing.