
Alô?
Alô.
Por favor, o Mário está?
Mário que Mário?
Ele hesitou um pouco, a língua se adiantara à boca e ele já ia dizendo “Aquele que...” quando de súbito lembrara-se. Era evangélico agora.
O Mário Antunes.
Aqui não tem nenhum Mário Antunes.
Mas aí não é (falou o número do telefone).
É. Disse a mulher em tom imperioso e calou-se bufando. Expressava claramente a sua insatisfação frente àquela ligação inapropriadíssima para a hora.
Então. O Mário Antunes me passou o número desse telefone e...
O telefone desligou-se. Em um primeiro momento ele olhou, curvando o corpo para trás, para a tomada, certo de que a mesma havia se desconectado, mas quando percebeu que ela continuava intacta sentiu uma dor lancinante no peito: era o ódio. A velhaca havia desligado o telefone. O rosto tornou-se rubro e uma gama imensa de impropérios lhe passou pela cabeça em menos de um lampejo de tempo. Brutalmente rediscou o número e a mesma voz seca e acabrunhada iniciou:
Alô.
Eu acabei de ligar para a senhora a respeito do Mário...
Não tem Mário nenhum meu senhor, foi um engano, um engano!
Eu queria falar sobre uma casa que está para alugar.
A senhora calou-se por um instante. Agora compreendia do que se tratava, mas não se sentia compelida a avançar na conversa.
Ah... Uma casa para alugar. Provavelmente o senhor desejaria falar com o Mauro.
Mauro?
É Mauro.
Antunes?
Não. Afonso.
Mauro Afonso?
É.
Hum. É uma casa de dois quartos, sala, cozinha...
É.
Eu gostaria de pegar a chave para olhar a casa, se não fosse incômodo.
A mulher agora parecia mais interessada e menos brusca disse:
Incômodo algum.O senhor pode passar amanhã mesmo para pegar a chave e aproveita enfia ela no (e terminou).
Ele, atônito e irado, tornou a discar, agora se descabelando, com o único intuito de desejar a velha que ela fosse fazer algo horrível em um lugar tenebroso. Mas o telefone estava mudo. Aquilo encheu o peito do homem de uma fúria jamais sentida por ele. Desejou tão mal à velha, mas tão mal, que sentiu náuseas. Foi até o banheiro e deixou lá todo o almoço. Depois, ainda aturdido, ficou a olhar para o telefone. E ficou assim durante muito tempo. Sem nada poder fazer. O ódio retirara dele todas as forças e agora só restava uma carcaça oca pronta a abrigar o que restara de um espírito recém convertido ao cristianismo presbiteriano.
A velha, após aquele ato de insuspeita maldade refestelou-se jubilosa no sofá. Acariciou o gato com indizível prazer no peito por ter se livrado de tão fastidioso malandro. No outro dia, os dois se encontraram na igreja em busca de salvação e cantaram lado a lado um hino de louvor à Nosso Senhor Jesus Cristo, chegando mesmo a segurarem as mãozinhas e a dar furtivas trocas de olhares enquanto ocorria a agitada cerimônia.
Pensou ele dela que parecia ser muito nobre senhora e ela dele que deveria ser um rapaz de muito respeito.
5 comentários:
Esse post cheira a vingança!
No dia seguinte, o homem tenta novamente falar com Mário. Disca o número e prende a respiração, como se ajudasse na torcida.
O telefone toca, 2 vezes... e é atendido:
- Alo?
- Eu gostaria de falar com o Mário, ele está?
- It´s me! Mário!
Esse foi mais um comentário "very gooda" de Murilo.
Thank you for play!
Congratulations, pode ser que leve 1 UP pra você conseguir outro comentário tão bom quanto esse...
Great blog!!!
If you like, come back and visit mine: http://albumdeestampillas.blogspot.com
Thanks,
Pablo from Argentina
Muito bom o texto, show de bola msm...
Situações que parecem absurdas, mas podem acontecer.
Eu queria encontrar alguma operadora de telemarketing.
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