Em 2008 a minha vida mudou completamente. Estava casada e sairia pela primeira vez da casa de meus pais. O destino? Berlim, Alemanha. Eu estava muito assustada com o fato. Sobreviveria à um inverno hostil? E sem saber pronunciar uma sentença em alemão que tipo de papel social eu desempenharia exatamente por lá? Fato é que morei naquela cidade por quatro meses e no dia de ir embora meu coração estava apertado e triste porque em Berlim eu pude constatar algo que raramente havia presenciado no Brasil: civilidade.
Poderia citar muitos exemplos que diferenciam o mundo desenvolvido do mundo subdesenvolvido, mas um bastante interessante é o de que no metrô de Berlim não existe catraca. E se você pergunta para um alemão "Mas ninguém burla esse sistema?" ele vai te olhar torto e perguntar "Mas como vou utilizar o metrô sem pagar pelo serviço?". Vejam que interessante. Na mente de um alemão não existe a opção de utilizar o metrô sem pagar e por isso não é preciso colocar catracas.
O alemão é um povo muito disciplinado e fechado. Logicamente que o modo de vida deles, como o de qualquer outro povo do planeta, possui prós e contras. Impossível esquecer que promoveram um dos eventos mais inimagináveis e sangrentos da história humana, liderados por uma mente doentia capaz de ludibriar essa predisposição estóica do pensamento alemão. Fato é que a economia dos germânicos em tempos atuais sempre foi um arauto do continente europeu e estar na liderança demanda esforço, trabalho e muita paciência para lidar com as reações adversas por parte de seus vizinhos.
Após a última crise, a Alemanha foi o país que mais rapidamente conseguiu dar a volta por cima. O crescimento robusto de sua economia, o seu desemprego em baixa e a solvência de suas contas vem provocando revolta em países indisciplinados e problemáticos como Grécia, Irlanda e Portugal. Como as diretrizes praticamente vem sendo determinadas no continente pelas vozes do Reichstag em Berlim, reações infantis e xenofóbicas ditam os parâmetros da política européia atual.
Os gregos resolveram encarar a questão de sua incúria econômica acusando os "filhos do Nazismo" (nestes termos) de não possuírem o direito de ditar as regras de sua política econômica porque devem muito aos europeus por conta da Segunda Grande Guerra. Em Portugal acusam Angela Merkel de ter espalhado o terror no mercado financeiro por suas declarações a respeito da insolvência da dívida portuguesa.
São, por certo, grandes nações, mas o comportamento de seus líderes mais parece o de mexeriqueiras levianas de cortiço. E fazer um paralelo com o comportamento humano do nosso dia-a-dia é inevitável. Segundo os gregos, o importante não é o fato de que a Alemanha respeite prazos e tenha uma política econômica saudável e responsável, mas sim o fato de no passado ter cometido inúmeros erros de ordem comportamental pelos quais sofreu e sofrerá as consequências irremediáveis. Muito mais fácil justificar nossos erros frente aos erros dos outros - e como isso é recorrente! - o que apenas demonstra como é difícil atingirmos um nível de qualidade que não só caracterize a nossa saúde financeira, mas também a nossa capacidade de auto-aperfeiçoamento para níveis de excelência.
1 comentários:
Também morei lá por um ano e tenho a mesma impressão que a sua. Na verdade, o conceito de cidadania a gente consegue enxergar bem lá, né?
Quando eu fechei a conta no banco de lá e a mulher não me deu nenhum papel comprovando o fechamento, eu perguntei se eu não receberia um comprovante. E ela só respondeu: está fechada, pode ter certeza.
Wunderbar!
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